Estudo reforça que a floresta foi moldada por sociedades que criaram solos férteis e domesticaram culturas hoje presentes em todo o mundo.
Imagem destacada - Povos amazônicos domesticavam mandioca, cacau, tabaco e açaí há 13 mil anos, revela estudo

Pesquisas arqueológicas coordenadas pelo antropólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), mostram que comunidades humanas já viviam na Amazônia há pelo menos 13 mil anos e foram responsáveis pela domesticação de espécies como mandioca, cacau, tabaco e açaí.

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Segundo Neves, a região funcionou como um polo autônomo de domesticação de plantas. A mandioca teria origem no sudoeste amazônico (atual Rondônia, Mato Grosso e sul da Bolívia) e hoje é cultivada em todo o cinturão tropical. Evidências microbotânicas indicam que o cacau foi manipulado pela primeira vez há cerca de 5 mil anos no atual Equador, antes de chegar à Mesoamérica. O tabaco, praticado do norte da Argentina ao Canadá na época da chegada europeia, também teria surgido no sudoeste da floresta. Já o açaí provavelmente foi inicialmente manejado na foz do Amazonas.

Outras espécies citadas pelo pesquisador incluem guaraná (Maués e Parintins), bacuri e cupuaçu. Neves destaca que, diferentemente das grandes monoculturas de grãos, a produção amazônica concentrava-se em árvores frutíferas, raízes e tubérculos, além de milho introduzido da Mesoamérica há cerca de 6 mil anos.

Populações numerosas e solos férteis

Levantamentos das últimas décadas apontam que a Amazônia pré-colonial chegou a abrigar de 8 a 10 milhões de habitantes. Esses povos criaram as primeiras cerâmicas das Américas, desenvolveram formas de urbanismo de baixa densidade e transformaram extensas áreas em solos altamente produtivos, as chamadas terras pretas.

Esses solos antropogênicos, formados pela acumulação de resíduos orgânicos e fragmentos de cerâmica, cobrem entre 2% e 3% da floresta – uma área comparável ao estado do Rio de Janeiro – e mantêm fertilidade por séculos. Atualmente, comunidades como os Tenharim cultivam milho em sítios arqueológicos com terra preta para produzir pamonha, alimento central para sua identidade cultural.

Vestígios ocultos sob a mata

A arqueologia também identificou montículos artificiais, canais e mais de mil geoglifos distribuídos principalmente no Acre e na Bolívia. Técnicas de varredura a laser (Lidar) permitem revelar estruturas cobertas pela copa das árvores, como um grande quadrado do tamanho do Maracanã na Terra do Meio (Pará) e aldeias circulares conectadas por estradas retas de quilômetros de extensão.

As descobertas integram o projeto Amazônia Revelada, financiado pela National Geographic Society. Antes dos sobrevoos, a equipe conversa com povos indígenas, ribeirinhos e agricultores para obter consentimento e discutir impactos da pesquisa.

Neves afirma que entender como antigas sociedades transformaram a floresta é fundamental para elaborar estratégias de preservação diante da perda de cerca de 20% da Amazônia brasileira nas últimas quatro décadas.

Com informações de Canal Rural

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