O periódico científico Regulatory Toxicology and Pharmacology (RTP) retirou de circulação, na semana passada, o artigo de 2000 que afirmava não haver evidências de carcinogenicidade do herbicida glifosato, base de produtos como o Roundup.
A pesquisa, assinada pelos acadêmicos Gary M. Williams, Robert Kroes e Ian C. Munro, era amplamente citada por órgãos reguladores, entre eles a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), mesmo após denúncias de que teria sido em parte redigida pela então fabricante Monsanto.
Pedido de retratação
A decisão ocorreu após solicitação dos pesquisadores Alexander A. Kaurov e Naomi Oreskes, que investigam o impacto de textos produzidos com participação de empresas. Ambos publicaram, em setembro de 2025, o estudo “The afterlife of a ghost-written paper”, defendendo que o artigo de 2000 influenciou debates científicos, políticas públicas e a percepção da sociedade sobre o glifosato ao longo de duas décadas.
Segundo Kaurov, nenhum pedido de retratação havia sido apresentado anteriormente, o que os surpreendeu. A carta enviada à RTP foi analisada por Martin van den Berg, editor-chefe da revista, que listou sete motivos para o cancelamento do estudo, entre eles:
- avaliações de carcinogenicidade e genotoxicidade questionáveis;
- falta de independência dos autores;
- omissão sobre contribuições da Monsanto;
- dúvidas sobre remuneração;
- ambiguidade nos resultados;
- uso inadequado de abordagem “peso da evidência”;
- influência histórica indevida.
“Funcionários da Monsanto podem ter colaborado na redação sem o devido reconhecimento”, escreveu van den Berg no aviso de retratação, destacando problemas de transparência e integridade acadêmica.
Contexto jurídico e regulatório
A retirada ocorre enquanto a EPA revisa, como exige a legislação a cada 15 anos, o registro do glifosato. No mesmo período, o governo do ex-presidente Donald Trump solicitou que a Suprema Corte aceite o recurso da Bayer – atual proprietária do Roundup – para limitar mais de 67 mil processos que alegam relação do produto com câncer.
Posicionamentos
Em nota, a Elsevier, editora do RTP, afirmou que mantém “os mais altos padrões de rigor e ética”. A Bayer declarou que o glifosato é “o herbicida mais estudado nos últimos 50 anos” e que a maior parte dos trabalhos sobre a substância “não teve participação da Monsanto”. Sobre o artigo retirado, a empresa sustenta que o reconhecimento à colaboração de seus cientistas estava claramente descrito nos agradecimentos.
A companhia também citou parecer de 2017 da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), que considerou que os laços entre autores e indústria eram conhecidos pelos avaliadores da agência.
Impacto de longo prazo e papel da IA
Kaurov observa que estudos retratados continuam a ser consultados. Embora as referências na Wikipédia tenham diminuído após a retração, versões não marcadas como canceladas ainda aparecem em buscadores, incluindo o site do Instituto Nacional de Saúde dos EUA.
O pesquisador acrescenta que ferramentas de inteligência artificial tanto podem perpetuar essas citações quanto auxiliar na análise de grandes volumes de documentos, facilitando novas investigações sobre ghostwriting acadêmico.
Com a retirada, resta avaliar como a decisão influenciará futuras revisões regulatórias e processos judiciais relacionados ao glifosato.
Com informações de AgFunderNews